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ENSINAMOS MAIS DO QUE PENSAMOS
Autoria: Ney Felippe Cocchiarale


O esporte educa. Pelo menos esse é o pensamento aceito pelo senso comum. Mas educa para quê?

Lembro-me de um técnico ter dito a seu atleta que iria disputar uma competição em melhor de três lutas que, se na primeira ele tivesse a oportunidade de aplicar um kansetsu waza, era para ele dar um tranco e estalar o braço do adversário de modo que ele não pudesse retornar para os outros confrontos.

Em uma outra ocasião, um atleta conquistou um ippon sobre seu adversário, mas, como ambos estavam de judogui branco, foi dada a vitória por engano ao outro competidor sem que ninguém tivesse percebido o erro, a não ser o professor do atleta que saiu como vencedor da luta. Como este professor estava filmando a luta, após conferir as imagens para tirar qualquer dúvida sobre o resultado, imediatamente ele alertou os árbitros que interromperam a luta seguinte que já havia se iniciado. Os árbitros, então, esclareceram o engano e fizeram os atletas retornarem para ser dada a vitória a quem realmente mereceu. Para esse professor, o seu aluno ganhou muito mais perdendo a luta.

A responsabilidade de ser professor deve superar a busca por resultados competitivos. Ser professor é antes de tudo formar o homem e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e solidária. Formar o atleta não é só dar condições físicas, técnicas, táticas e psicológicas, mas, principalmente transmitir valores éticos e morais que fortaleçam o seu caráter e o tornem um ser humano melhor.

E não é o que você diz que irá garantir a aquisição de valores por seus alunos, mas, sim, o que você faz. O que fazemos e como fazemos têm um impacto muito maior nesse processo de aprendizagem. Portanto, ensine-os dando o exemplo!

Quando focamos nossos objetivos nos resultados das competições, lesionar um adversário para garantir a vitória e erros de arbitragem contra nós ou a nosso favor passam a ter uma enorme importância para a conquista de valiosos pontos, medalhas e troféus. Nesse pensamento, começamos a ficar mais intolerantes com os erros. A desconfiança, o desrespeito, o nervosismo exarcebado e o nosso instinto de sobrevivência dominam nossos atos e as atitudes são tomadas no calor do momento. Perde-se a essência do ser humano.

Em contrapartida, quando o esporte e a competição são vistos como um meio para formação do homem e da construção social, os pontos, as medalhas e os troféus devem ser conquistados, não por ippons ou wazaris, mas pela amizade, o respeito, a honestidade, a tolerância, a solidariedade e demais valores que fazem do ser humano um verdadeiro campeão.

Então, caro professor, qual é o seu foco?


O autor é Diretor de Ética e Disciplina da LIJUERJ

 

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