O PREÇO DA FANTASIOSA GLÓRIA

   Antonius "Anton" Geesink provocou uma das maiores surpresas da história dos Jogos Olímpicos ao vencer a categoria aberta do judô em Tóquio-1964, logo na estréia deste esporte criado por japoneses. No dia 23 de outubro de 1964, o Japão já tinha vencido a medalha de ouro nas categorias leve, médio e semi-pesados. Mais de 17 mil japoneses fanáticos estavam no Nippon Budokan Hall para ver Akio Kaminaga, o maior lutador do país, ganhar a quarta e mais importante medalha, a da categoria aberta. Apesar do favoritismo de Kaminaga, o gigante holandês conseguiu se defender da feroz ofensiva do adversário e perto do final, aos 9 minutos e 22 segundos de luta, aplicou uma veloz combinação de golpes que imobilizou seu oponente, conseguindo a vantagem necessária para a vitória.
   A derrota de Kaminaga provocou um verdadeiro drama nacional no Japão. Os japoneses foram derrotados em uma modalidade que consideravam sagrada, por um lutador estrangeiro. Dois anos após a derrota, Kaminaga se suicidaria como forma encontrada para pedir perdão pela derrota.
   Nos tempos atuais, com a modernidade e conscientização dos fatos, creio que não seria uma boa prática o ato de cometer suicídio, por uma derrota em uma atividade esportiva, pois uma derrota deve ser vista como um estímulo ao foco no treinamento, e correção e alinhamento em pontos falhos no curso destes, ou seja, a correção de métodos e sistemas utilizados, associados a fatores alimentares, psicológicos, físicos etc etc.
   Todavia, podemos encarar este suicídio, como uma forma de reflexão e análise do tamanho grau de honradez e amor pelo esporte, possuía o Kaminaga. Que sentimento tão profundo leva um ser humano a cometer tal atrocidade, contra si mesmo? Que valores são medidos neste momento, e qual o peso destes?
   Valores: Princípios valiosos do judoca. Quais os valores do judoca dos tempos modernos?

Qual o preço de uma medalha?

   Temos notícias e informações de atletas das mais diversas modalidades esportivas, inclusive o próprio judô, que são pegos em exames de dopping, o que a meu ver, quando proporciona uma medalha, esta, não tem o verdadeiro sabor da vitória. Creio que as lágrimas de um atleta que sobe ao podium para recebimento de sua medalha, sob a condição de efeitos do dopping, com aumento de força, de condição física, sendo isto uma coisa irreal, creio que estas lágrimas também sejam irreais, e com certeza, lágrimas compostas de substâncias químicas nocivas à saúde. Nada mais que uma fantasia.
   E a questão é: vale a pena pagar o preço com a saúde, ou com a própria vida por uma fantasia? Haja visto que a força, a capacidade aeróbica são aumentadas em função das drogas ingeridas, sem contar, as punições, que considero ainda muito brandas, para os atletas que são classificados como consumidores destes produtos, quando submetidos a exames anti-dopping.
   Creio que, técnicos de atletas de altíssimo rendimento, deveriam se preocupar com métodos, pesquisas científicas capazes de aumentar o condicionamento embasados em sistemas de estudos da física mecânica, da biomecânica, onde, uma medalha conquistada e o suor exalado pela exaustão em uma competição, seja pura e simplesmente suor, o suor da vitória de cara limpa, e as lágrimas, sejam lágrimas de alegria, vindas do coração, pois, para os usuários de produtos artificiais considerados de dopping, estão como Kaminaga: também se suicidam, com a diferença que Kaminaga teve morte por suicídio instantânea, e os usuários de produtos de dopping, o fazem, se suicidando um pouco a cada dia.

Artigo

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JUDÔ ESCOLA NIPPON
Prof. Luiz Carlos F. Souza
5º Dan de Judô Kodokan
Petrópolis - RJ - Brasil
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